Vigílias

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Vigílias

'Da nem sempre sublime variedade do Mundo,
da não rara amargura,
do remorso,
de tudo,

dia a dia te nutres, dia a dia te envolves!'

David Mourão-Ferreira

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  • “estive tão longe de ti
    que não pensei sequer lembrar o teu nome
    percorri distâncias escuras, estradas imóveis
    onde circulava o peso sem cor do esquecimento
    e se curvavam as pedras à boca do destino

    vezes houve em que dormi sem estrelas
    num vazio de astros que me congelava as veias
    e me amortecia a vida em poços de água
    que a vida não podia tocar - rondavam os lobos

    e contava os dias, riscando a minha loucura
    nas folhas secas do caminho, escondendo a réstia de sonho
    entre as raízes ainda vibrantes das árvores rugosas
    conhecia por vezes o movimento quase imperceptível
    das grandes estações internas, o estalar da seiva,
    o tambor duro onde vinha cantar a melancolia

    a solidão assustava-me, queimava-me a pele
    no vermelhíssimo lume das mãos dos mortos
    quero dizer-te que não mais vi ternura
    que os meus pés ganharam idade a um ritmo
    que não pude conter, acompanhar, escrever-te

    sim, fiz-me não te escrever
    para que o meu corpo não ouvisse o vento
    e as ondas fossem quebrar ao centro dos oceanos
    para que uma palavra não pousasse no teu rosto
    e levasse a luz dos teus olhos e a vida nos teus lábios

    arranquei de mim a morada que eras tu
    desisti dos pássaros, afundei barcos, lâminas,
    apaguei o calor dos porões como se uma vela
    pudesse perigosamente insistir na permanência
    desse mundo que era a minha voz, éramos nós

    éramos nós, choro
    sinto no enrolar dos dedos o ínfimo do teu nome
    a abertura impossível de uma janela de avelãs
    as avelãs que nos escutavam (lembras-te?)
    enquanto lá fora, fora de tudo, a neve
    se abatia sobre o dorso antigo das nossas mães
    sobre a dor vencida no embalo dos bebés

    estive tão longe de ti
    mas deixa que agora te nomeie entre as nuvens
    e traga para dentro de mim a pintura das tuas pálpebras
    o aroma que era o teu corpo nas manhãs a dois
    deixa que venha morrer junto de ti
    no ventre do amor que prometemos ao infinito.”

    Vasco Gato

    Posted on October 2, 2010 with 1 note

    1. moleannan posted this
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