Vigílias

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Vigílias

'Da nem sempre sublime variedade do Mundo,
da não rara amargura,
do remorso,
de tudo,

dia a dia te nutres, dia a dia te envolves!'

David Mourão-Ferreira

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    “Não acordei com o teu corpo,
    mas com um verso
    que me parece agora
    o mais triste do mundo:
    Le tuve tan cerca.

    Foi verdade, foi tão depressa
    mentira - acabarmos juntos
    no último bar. Ou apertar-te
    em plena desrazão os ombros,
    o pescoço baixo,
    a cor indecisa dos cabelos.
    Enquanto se partem tão
    tristes os tristes copos
    que nessa noite derrubei - e eras tu.

    Não sei o que te disse, que
    outras partes de quem foste
    toquei ou perdi. De qualquer modo,
    perdi. E foi, só podia ser,
    demasiado triste: dois corpos
    que ninguém via desciam a rua
    da Misericórdia, já perto da manhã.
    Aquela nenhuma distância
    não pôde ser um beijo. Apenas derrota,
    ressaca, mais uma canção sem nós.

    Tu não sabes - e ainda bem - que
    este homem te desejou todas as noites,
    até que fechasse o bar. Este homem
    que não deseja e que tem,
    infelizmente, um nome igual ao meu.

    Da próxima vez, quero estar menos
    bêbedo, saber se apanhámos
    ou não o mesmo táxi. Mas
    «da próxima vez» nunca existirá.”

    Manuel de Freitas.

    Posted on March 22, 2010

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