Vigílias

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Vigílias

'Da nem sempre sublime variedade do Mundo,
da não rara amargura,
do remorso,
de tudo,

dia a dia te nutres, dia a dia te envolves!'

David Mourão-Ferreira

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    ‘até pode ser que nem gostes muito destas palavras
    nem de mim agora que os meus gestos
    são tão diferentes
    agora que recordas tanta coisa que eu esqueci
    e ainda bem ninguém pode viver
    com o peso do que ficou para trás
    agora que os livros as canções as laranjeiras
    ficaram para sempre naquele cenário de primavera
    que fazia de nós todos o garantiam
    presas tão fáceis


    pressinto que hás-de culpar-me sempre
    pelos anos que perdemos por becos ruas avenidas
    esquecendo à toa aquilo
    que só um ao outro deveríamos ter ensinado

    talvez até tenhas razão mas eu chegara
    àquele lugar da vida onde só se pode
    amar para sempre e sem remédio
    e de um dia para o outro a minha boca
    desaprendeu disciplinadamente o sabor da tua
    e os teus passos a tua voz o céu de paris
    a janela sobre os telhados os domingos de sol
    atravessaram as mais arrastadas fronteiras
    e estabeleceram os seus limites do lado de lá
    de todas as madrugadas que eram nossas

    houve mesmo um tempo desculpa em que esqueci
    as cartas os cigarros as fugas os recados
    as canções as camélias o jardim
    onde me esperavas às nove da manhã
    a velha que nos olhava abanando a cabeça
    entre estátuas decepadas e gatos vadios

    talvez um dia quem sabe o destino
    volte a ter novos contornos e nos olhe de frente
    e ainda sobre tempo para reaprender a soletrar correctamente
    todas as palavras que admitiam ter nascido
    do teu corpo da tua voz do sabor da tua boca
    tempo para povoar de novos sons os velhos discos de vinil
    e sonhar com mundos à espera de serem salvos
    pelas nossas palavras

    tempo para nos olharmos e encontrarmos
    sem remorsos
    a maneira de nos perdermos de novo nos caminhos
    que levam ao coração absoluto da terra

    talvez um dia quem sabe eu volte
    a faltar às aulas para esperar por ti’



    Alice Vieira

    via Pura Coincidência

    Posted on June 2, 2010

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